Criança que nasceu com ‘meio’ coração desafia medicina e completa 3 anos

Manuella enfrentou três cirurgias em menos de um ano. Agora, família está preocupada pois tratamento acabou sendo suspenso.

Por Andressa Barboza, G1 Santos

Manuela nasceu com síndrome de hipoplasia no coração esquerdo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Manuela nasceu com síndrome de hipoplasia no coração esquerdo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma bebê que foi desacreditada pelos médicos ainda na barriga da mãe completa, neste mês de março, três anos de vida. A família mora em Santos, no litoral de São Paulo, e a menina, que nasceu com apenas metade do coração, tem acompanhamento constante em um hospital de São Paulo, onde ela luta pela vida desde o nascimento.

A pequena Manuella Amaral, de dois anos, foi diagnosticada com síndrome da hipoplasia do coração esquerdo ainda na barriga da mãe, com poucos meses de gestação. Isso significa que o lado esquerdo do coração de Manuella não se desenvolveu completamente, deixando a menina com limitações e presa a um tratamento contínuo pelo resto da vida.

De acordo com o cardiologista William Costa, professor de Cardiologia do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos, a síndrome é uma doença rara. “Quando a pessoa tem esse problema, quer dizer que o lado esquerdo, que envia o sangue para todo o organismo, não funciona. Foi um desenvolvimento anormal desta cavidade do ventrículo esquerdo”, conta.

Em entrevista ao G1, o cardiologista explicou que a doença é diagnosticada em fase fetal, como foi a de Manuella, “Essa bomba propulsora atrofiada inviabiliza a vida. A criança precisa de cirurgia o mais precocemente possível. Muitas vezes, esses casos podem evoluir para o não desenvolvimento fetal e o bebê morre antes de nascer. Manuella faz parte de um grupo priveligiado e raro”, explica.

Exame de imagem mostra coração que não desenvolveu o lado esquerdo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Exame de imagem mostra coração que não desenvolveu o lado esquerdo. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Descobriram que ela tinha a síndrome ainda na minha barriga. Falaram que ela não iria sobreviver. Depois, me encaminharam para o Hospital do Coração (HCor) em São Paulo e, desde a gravidez, a Manuella é acompanhada e faz tratamento. A primeira cirurgia dela foi com um dia de vida”, conta a mãe da menina, Aline Amaral, que com 32 anos vive apenas para cuidar da filha.

Manuella nasceu no dia 31 de março e, no primeiro dia de vida, foi para a sala de cirurgia para colocar um stent no coração, o que os médicos chamam de cirurgia híbrida, por conta do problema de desenvolvimento. A menina ficou 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do HCor, teve diversas convulsões, mas lutou pela vida e conseguiu ir para casa.

Após três meses, a menina voltou para a sala de cirurgia onde precisou fazer cateterismo e, com seis meses, foi necessária outra cirurgia. “Com seis meses de vida, ela já tinha feito três cirurgias importantes e delicadas. A Manuella é uma guerreira”, conta.

Manuella e os pais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Manuella e os pais. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aline conta que, depois das primeiras cirurgias, Manuella foi para casa e o tratamento continua, até hoje, com visita a cada três meses ao HCor. A menina vive como uma criança normal dentro de suas limitações. “Com quase três anos, ela começa a entender as dificuldades dela. Ela começa a brincar e fica cansada, então ela para, senta e descansa um pouco. Depois volta a brincar. Ela está aprendendo a lidar com os probleminhas”, explica a mãe.

Segundo a mãe, Manuella tem dificuldade no desenvolvimento da fala e, neste ano, entrará na escolinha em meio período para adaptação, mas a maior preocupação é sobre o tratamento da menina. “Liguei no HCor e não marcaram a próxima consulta pois disseram que estava suspensa a filantropia por tempo indeterminado. Não temos condições de arcar com esse tratamento de maneira particular.”

Manuella tem uma cicatriz no peito causada devido às cirurgias. (Foto: Arquivo Pessoal)

Manuella tem uma cicatriz no peito causada devido às cirurgias. (Foto: Arquivo Pessoal)

Aline e outras mães fizeram um abaixo assinado na internet pedindo o retorno da marcação das consultas e solicitando que o convênio filantrópico não seja encerrado. “Precisamos da ajuda de todos, a Manu é uma guerreira, mas precisa desse tratamento”, explica a mãe.

A Secretaria de Saúde de Santos informou que o atendimento de casos de cardiopatia congênita é serviço de alta complexidade de responsabilidade do Governo do Estado, que deverá buscar outro hospital especializado na rede SUS para a continuidade do tratamento da criança.