Estado de Minas mostra comunidades arrasadas por enchentes na Zona da Mata

Com o recuo das águas na Zona da Mata, vêm à tona os dramas, o heroísmo e a solidariedade de famílias atingidas pela catástrofe, cujos prejuízos ainda levarão tempo para ser contados


Cenário de terra arrasada: quando a água baixou, distritos das cidades de Rio Casca e São Pedro dos Ferros se viram tomados pela lama. Comunidades inteiras perderam pertences e tiveram casas comprometidas(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)
A trégua temporária dada pela chuva especialmente em seis cidades da Zona da Mata mais duramente atingidas pelos temporais de segunda-feira permitiu a moradores, bombeiros e servidores das equipes municipais de Defesa Civil começarem a contabilizar os prejuízos. Quando a água baixou, o que a população de Urucânia, Santa Cruz do Escalvado, São Pedro dos Ferros, Rio Casca, Santo Antônio do Grama e Piedade de Ponte Nova encontrou foi muita destruição, rastros de lama em centenas de casas atingindo até dois metros de altura. Os distritos de Águas Férreas, que pertence a São Pedro dos Ferros, e Vista Alegre, território de Rio Casca, acumularam muitos destroços e moradores passaram muitos dias limpando suas casas. Quatro pessoas seguem desaparecidas, três delas em Urucânia e uma em Vespasiano, na Grande BH. O número de mortos subiu para seis no atual período chuvoso, já que o corpo de uma adolescente de 13 anos foi encontrado também em Urucânia. O irmão e a avó da menina seguem desaparecidas na cidade.

Com o recuo da inundação, começaram a surgir as faces da calamidade. Rostos sofridos, como o de Gerlaine de Souza Soares Domingues, de 41, que teve de se refugiar, acompanhada de seis crianças, em cima do telhado de sua casa de dois andares, em Rio Casca, para escapar da enchente. “Só pedia a Deus para segurar essa casa”, contou ela ontem, ainda muito assustada. Não é para menos: a marca da água nas paredes impressiona, chegando a mais de um metro no segundo pavimento do imóvel. Nas ruas da vizinhança, o cenário é um misto de lama tomando calçadas, junto de restos de móveis, eletrodomésticos e entulho.

Em meio aos olhares tristes e cansados de quem vê o tamanho do prejuízo, destacam-se histórias de quem ignorou o risco à própria vida para salvar as de outros. Um desses heróis é Helvécio Sebastião dos Santos, de 47, que com um bote e apoio de um amigo ajudou a retirar mais de 50 pessoas ilhadas entre Rio Casca e São Pedro dos Ferros, em um trabalho que varou a madrugada e terminou quase às duas horas da manhã.

Ontem, ao caminhar pelas ruas cheias de lama e entulho, Helvécio não demonstrava cansaço e continuava a ajudar. Enquanto ouvia expressões de reconhecimento, auxiliava na limpeza de algumas casas e carregou pertences de moradores. A todo momento era cumprimentado por aqueles que presenciaram o resgate. “É um herói. Primeiro foi Deus,  depois, ele. Estava todo mundo apavorado, gritando e ele arriscou a vida para salvar o pessoal”, testemunhou Maria Margarida de Jesus Silva, de 54. “Se não fosse ele, teria muita gente morta”, acrescentou Claudione Carlos, de 29.

Herói: Helvécio dos Santos salvou 50 pessoas(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)

O esforço para limpar a sujeira e começar a reconstruir a vida se repete em várias comunidades dos municípios atingidos, onde agora faltam água potável e mantimentos. Casos de luta pela vida se multiplicam em meio aos moradores que, com ajuda de vizinhos e disposição, tentam limpar o que a água não carregou. Uma das histórias marcantes é de Gerlaine Soares Domingues, moradora de águas férreas, distrito do município de São Pedro dos Ferros.

As histórias de Gerlaine e Helvécio, morador de Vista Alegre, distrito do município de Rio Casca, se uniram de forma catastrófica pela enxurrada do Rio Casca, que saiu de sua calha e cuja correnteza arrasou o que encontrou pela frente. Mesmo um dia depois da tempestade o curso d’água continuava com cinco metros acima do leito normal, segundo os moradores.

Sufoco: andar pelas ruas enlameadas é desafio(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)

A força da correnteza destruiu completamente dezenas de residências. Em outras, provocou danos irreparáveis em móveis, eletrodomésticos, roupas e documentos. “Podemos estimar que 90% dos distritos foram afetados. A energia elétrica foi cortada e não tem abastecimento de água potável para os moradores tomarem banho ou fazer comida. Faltam também a própria alimentação e medicamentos”, afirma o sargento Lázaro Santos Rodrigues, do Batalhão de Emergências Ambientais e Resposta a Desastres (Bemad), do Corpo de Bombeiros.

Os militares continuam nas comunidades para contabilizar os estragos e verificar denúncias de pessoas desaparecidas. No fim da tarde de ontem, uma garota foi resgatada junto com a mãe também no distrito de Vista Alegre. A menina estava havia três dias sem comer e tinha febre. Ela foi levada de helicóptero até Rio Casca e de lá, levada para um hospital da região. “Devido ao local estar sem medicamentos e alimentação, tivemos que fazer o resgate. A menina está com suspeita de infecção. Foi deixada na unidade de saúde para tomar soro e a medicação adequada”, explicou Giovana Ferreria Zanin Gonçalves, medica do Samu que ajuda nas buscas com a aeronave dos Bombeiros.

Batalha: dia foi de combater o barro e os prejuízos(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)

Acostumados a pequenas enchentes, moradores de Vista Alegre e Águas de Ferros ignoraram avisos de agentes do posto de saúde sobre uma possível tromba d’água. Por isso, muitos continuaram nas casas, mesmo próximas ao Rio Casca. “Estamos acostumados com enchentes. Tanto que avisaram cedo que havia chovido forte em uma cidade acima, mas ninguém deu muita importância”, disse Deila Cunha Rocha Couto, de 35. Por causa das cheias constantes, as casas próximas ao leito são, em sua maioria, de dois andares. Desta vez não foi o bastante para proteger os moradores.

Pesadelo: Gerlaine e crianças fugiram pelo telhado(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)

DEPOIMENTO

“Impossível não relembrar Mariana”

“Antes de chegar a Vista Alegre e Águas Férreas, distritos de Rio Casca e São Pedro dos Ferros, fomos alertados por uma funcionária de um posto de combustíveis sobre a situação crítica que as comunidades enfrentavam depois do temporal. Mas foi quando comecei a enfrentar a lama na estrada junto com o fotógrafo Ramon Lisboa e o motorista Paulo que deu para perceber o tamanho da devastação. ‘Bento Rodrigues voltando à tona.’ Essa foi a frase que ouvi na primeira entrevista, ainda na estrada. Realmente, ao chegar às duas comunidades, foi impossível não lembrar da tragédia de Mariana. Ruas tomadas por lama, casas destruídas, plantações arrasadas, animais mortos… Triste viver isso de novo. Também ouvi histórias de pessoas que se salvaram se refugiando em telhados, outras salvas por heróis. Que a solidariedade dos moradores, que se ajudavam mesmo depois de perder tudo, sirva de inspiração aos mineiros e ao país. Eles precisam mais do que nunca de roupas, mantimentos, medicamentos e, principalmente, água potável. E ajudar nunca é demais” (João Henrique do Vale)

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