Ex-América e Fluminense, Richarlison encanta na Inglaterra com dribles e gols e sonha em ser chamado para a Seleção

Sensação da Premier League pelo Watford, atacante falou ao Superesportes sobre metas na carreira: ‘Quero disputar Champions League e Copa do Mundo’

AFP / Lindsey PARNABY
Os dribles desconcertantes, as faltas sofridas, as assistências e os gols de Richarlison têm levado o Watford a uma campanha de respeito no Campeonato Inglês. Depois de encerrar a edição de 2016/2017 da Premier League em 17º lugar, com 40 pontos, os Hornets ocupam a oitava posição em 2017/2018 e sonham ao menos com uma vaga nos playoffs para a Liga Europa de 2018/2019. Aos 20 anos, o ex-jogador de América e Fluminense se adaptou rapidamente à vida na Inglaterra, tanto no futebol quanto fora das quatro linhas. Em campo, ele conta com o apoio do goleiro brasileiro Gomes, ex-Cruzeiro, e do técnico português Marco Silva. Fora, os responsáveis por dar suporte ao jovem são Renato Velasco (empresário), Geovana Velasco (esposa de Renato) e Pedro (amigo de infância). 
Richarlison deixou de ser o menino tímido nas entrevistas, pois ganhou amadurecimento na trajetória de quase dois anos e meio como profissional. E ao ser perguntado pela reportagem do Superesportes se houve alguma surpresa com o bom início no futebol inglês, o atacante não adota discurso de modéstia. “Esperava começar bem sim. Vim para cá para fazer história pelo Watford e também porque o Marco Silva (treinador), que me viu jogando pelo Fluminense no Brasil, disse que confiava no meu potencial. Vi como o time estava. Na temporada passada, quase foi rebaixado. Vim com o intuito de colocar o time para cima. Espero ficar e ajudar o Watford a disputar uma competição europeia”.
A estreia de Richarlison pelo Watford ocorreu em 12 de agosto. Ele entrou aos 4min do segundo tempo da partida contra o Liverpool e participou do lance do gol de empate por 3 a 3, marcado nos acréscimos. A bola chutada pelo camisa 11 tocou no travessão e sobrou para o zagueiro uruguaio Miguel Britos balançar a rede. Uma semana depois, Richarlison anotou seu primeiro tento pelo clube, na vitória por 2 a 0 sobre o Bournemouth, fora de casa. Nesse confronto, abusou ao dar um chapéu e uma caneta no mesmo lance no lateral-direito Adam Smith. No revés por 4 a 2 para o Chelsea, em Stamford Bridge (21/10), as “vítimas” foram o espanhol Azpilicueta e o alemão Rudiger (assista, abaixo, ao vídeo da ESPN).

Até aqui, Richarlison fez 15 jogos na Premier League: marcou cinco gols e deu quatro assistências. Os bons números têm uma explicação: o atacante entendeu rapidamente a maneira como os treinadores do futebol inglês gostam de jogar. “No futebol brasileiro há alguns jogos que nos permitem pensar por alguns segundos. Aqui na Inglaterra não. São 90 minutos corridos, de muita pegada. Os caras aqui também usam bastante a parte física. Durante os treinamentos, os preparadores trabalham a parte física para que câimbras sejam evitadas e o ritmo de jogo não caia. Não tem essa de terminar na metade do segundo tempo. No Brasil, quando o jogo chega aos 45 minutos do segundo tempo, os times estão muito cansados. Aqui é até o fim. Estava assistindo ao jogo do Manchester City (contra o Southampton, pela 14ª rodada), que buscou a vitória no fim (2 a 1), o Sterling marcou um golaço de fora da área. No nosso jogo contra o Manchester United (14ª rodada) foi assim também: começamos perdendo por 3 a 0, fizemos 3 a 2 no segundo tempo e tentamos o empate. Infelizmente acabamos levando o quarto gol no contra-ataque, mas não desistimos em momento algum”.
Para contratar Richarlison, o Watford investiu 12,5 milhões de euros (R$ 46 milhões, com vínculo até julho de 2022). O Fluminense ficou com a metade do montante. O América, por sua vez, recebeu 20% – cerca de R$ 9 milhões. Os 30% restantes foram divididos entre investidores e o Real Noroeste, do Espírito Santo. Tão logo despontou na Inglaterra, Richarlison passou a ser observado por gigantes no país. De acordo com a imprensa local, Arsenal, Chelsea e Tottenham querem o ex-camisa 9 do América e poderiam pagar até 25 milhões de euros (R$ 96 milhões). Scott Duxbury, diretor executivo do Watford, garantiu que não pretende vendê-lo. Sem se aprofundar nas especulações, o atleta se mostra contente com o assédio. “Só vejo notícias mesmo nos jornais daqui. Mas fico feliz, é sinal de que estou fazendo um grande trabalho no Watford”.
Na cabeça de Richarlison está apenas o desejo de crescer na Inglaterra e, quem sabe, despertar as atenções de Tite para uma possível convocação à Seleção Brasileira que disputará a Copa do Mundo da Rússia, em 2018. “Estou trabalhando e lutando. Ouvi da boca do Tite que ele está de olho em mim e em outros jogadores jovens que estão surgindo. Fiquei muito feliz. Acompanhei a convocação passada para ver se saía meu nome, mas não saiu. Continuarei treinando forte e procurarei jogar melhor para ter essa oportunidade”.
Como Tite já tem a base de sua convocação definida para o Mundial, é difícil que o destaque do Watford esteja entre os 23 relacionados. Mas os 20 anos de idade deixam Richarlison em condições de representar o Brasil no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. A competição contempla jogadores com menos de 23 anos. 

Vida em Watford
Richarlison reside em Watford, cidade de 90 mil habitantes situada a 32 quilômetros de Londres, capital do Reino Unido. A casa alugada pelo jogador fica a cinco minutos do centro de treinamento de seu clube. Como ainda não tirou carteira de habilitação, ele conta com a ajuda do empresário Renato Velasco no deslocamento até o local de trabalho. Eventualmente, o goleiro Gomes lhe oferece uma carona. 
Reprodução/Instagram

Quando não está jogando, Richarlison tem como passatempo jogos de futebol virtual, especialmente o Fifa’18, e sinuca. Não faltam também as famosas resenhas com outros brasileiros, entre eles o companheiro de clube Gomes e os jogadores do Chelsea David Luiz, Kenedy e Willian. Até mesmo o astro Neymar, do Barcelona, foi “tietado”. Em Londres, um dos programas favoritos é visitar a roda gigante London Eye, ponto turístico bastante procurado na cidade.

Alicerce da família
Conhecido por ser “cabeça boa”, Richarlison procurou juntar dinheiro desde que firmou o primeiro contrato como profissional, ainda no América. Quando foi vendido ao Fluminense, em dezembro de 2015 (R$ 10 milhões por 50% dos direitos), ganhou um grande reajuste salarial e comprou um apartamento no Rio de Janeiro para o pai, Antônio Marcos de Andrade. O jogador também presenteou a irmã mais velha, Kety, e a avó com casas próprias em Nova Venécia, no Espírito Santo. Ciente da curta duração da carreira profissional no futebol, Richarlison se concentra em fazer o “pé de meia” ao mesmo tempo em que encanta o mundo com dribles e gols.
“Eu sou tranquilo. No Fluminense mesmo comprei um carrinho simples para mim, um Civic. Vim para cá, muitas pessoas perguntaram se ia trocar de carro, eu disse que não. Estou juntando meu dinheiro, porque jogador de futebol a vida passa rápido. Comprando minhas coisinhas. Meu carrinho está lá. Essa é a minha vida”.

Quem quiser acompanhar Richarlison já pode se programar. Neste sábado, às 13h (de Brasília), o Watford (8º, com 22) visitará o Burnley (7º, com 25) no estádio Turf Moor, em Burnley (condado de Lancashire), pela 16ª rodada do Campeonato Inglês.

RICHARLISON ANDRADE

Data de nascimento: 10/5/1997
Idade: 20
Altura: 1,79m
Peso: 75 kg
Pé preferencial: direito
Número da chuteira: 42
Clubes: Real Noroeste-ES (base), América, Fluminense e Watford-ING
Títulos: Copa da Primeira Liga (2016) e Taça Guanabara (2017)
Outros feitos: acesso à Série A do Campeonato Brasileiro (2015)

NÚMEROS NA CARREIRA
América: 24 jogos, 9 gols e 3 assistências (2015)
Fluminense: 69 jogos, 19 gols e 10 assistências (2016/2017)
Watford: 16 jogos, 5 gols e 4 assistências (2017)
Total por clubes: 109 jogos, 33 gols e 17 assistências
Seleção Brasileira
Sub-20: 8 jogos e 2 gols (2017)
TRANSFERÊNCIAS
Do América para o Fluminense: R$ 10 milhões (50% dos direitos)
Do Fluminense para o Watford: R$ 46 milhões (100% dos direitos)

EM D.A Press e AFP PHOTO
PING-PONG COM RICHARLISON
Além do Gomes, que é brasileiro, qual o jogador do Watford que você tem mais proximidade?
O Andre Gray, que joga no ataque comigo, costumo conversar bastante com ele. Muitos no time falam também o espanhol, então dá para entender muitas coisas.
Como está a adaptação ao idioma?
Estou fazendo aulas de inglês, mas ainda não consigo falar fluentemente, pois estou há pouco tempo aqui. Toda vez que tenho alguma dúvida ou não entendo o que me falam, o Gomes me ajuda na tradução.
Apoio do técnico Marco Silva e do goleiro Gomes
O Marco, na primeira ligação que me fez, passou muita confiança. Foi nesse contato que mudei de ideia. Iria para o Ajax, da Holanda, mas preferi acertar com o Watford. O Marco me disse que eu poderia jogar nas três posições de ataque, que tinha muita versatilidade. Eu sabia que era uma escolha difícil, mas que poderia ser muito feliz. O Gomes também se tornou um paizão para mim. Às vezes vem almoçar aqui em casa. Recentemente, fomos para a Espanha curtir uma praia. Está me ajudando bastante aqui na Inglaterra.
Na Inglaterra há liberdade para praticar o estilo de jogo driblador?

Tento os meus dribles, do mesmo jeito que fazia no Brasil. É o meu jeito de jogar. Acho que chama na atenção dos adversários. Contra o Manchester, por exemplo, houve marcação dobrada em cima de mim. Isso permitiu que os laterais ficassem abertos. Conseguimos fazer dois gols em jogadas iniciadas pelas laterais.

Qual o perfil exigido no futebol inglês?
Aqui eles cobram muita movimentação e dedicação na parte tática. Nós jogamos numa linha de quatro. Se um estiver fora, a defesa vai correr perigo. Ele sempre quer todo mundo junto para dificultar os ataques dos adversários.
Existem inspirações para o Richarlison?
Vejo muito os vídeos do Hazard, do Chelsea. Ele joga na minha posição e tem muita experiência na Premier League. É rápido, habilidoso e faz muitos gols. O Gabriel Jesus, que é da minha idade, também vejo muito. São duas das referências que tenho.
Quais os sonhos na carreira?
Sonho mesmo em disputar uma Champions League e uma Copa do Mundo.
E os objetivos no restante da temporada?
É jogo por jogo. Sempre dou o meu melhor. Com certeza, dando o meu melhor, o resultado vai aparecer e eu vou encerrar a temporada com muitos gols.

Ainda dá tempo de ser convocado por Tite para a Copa do Mundo de 2018?
Estou trabalhando e lutando. Ouvi da boca do Tite que ele está de olho em mim e em outros jogadores jovens que estão surgindo. Fiquei muito feliz. Acompanhei a convocação passada para ver se saía meu nome, mas não saiu. Continuarei treinando forte e procurarei jogar melhor para ter essa oportunidade.
Estar em alta na Inglaterra é um grande passo?
 
Na minha opinião, o peso de estar na Inglaterra é maior. Estou fazendo gols aqui e jogando bem. Se o Tite me convocar, com certeza estarei preparado.
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