Exame de Papanicolau só é eficiente se for feito rigorosamente todos os anos

Baixa cobertura coloca o Brasil nas primeiras posições do ranking de câncer no colo do útero

 por Alessandra Alves 

Pixabay/Reprodução da Internet
(foto: Pixabay/Reprodução da Internet)

Os números são alarmantes. Mais da metade dos exames de Papanicolau trazem resultados que podem ser falsos. Assim, se você é disciplinada e segue as diretrizes do Ministério da Saúde, ainda tem 50% de chance de ter alguma infecção causada pelo papilomavírus humano (HPV) e não saber. A probabilidade é ainda maior se você não faz o exame de forma regular. “Se você faz um teste na vida e não faz mais nada, e se esse teste é um falso-negativo, você foi para casa com câncer”, sentencia Luisa Lina Villa, bióloga e professora do Departamento de Radiologia e Oncologia da Escola de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a professora, o teor artesanal da avaliação e a baixa cobertura do exame no país colaboram com as altas taxas de câncer no colo do útero, sendo o terceiro tumor mais frequente na população feminina no Brasil e a quarta causa de morte de mulheres por câncer. “Você põe uma lâmina, tem que fixar essas células e aí começa o primeiro problema. Se você não fixa na hora, essas células vão morrer e você não consegue ver direito. Outro problema é que a cobertura dele no Brasil é baixa. Só é alta em capitais e, mesmo assim, apenas em algumas”, explica Luisa. 

É o caso, por exemplo, da rede pública de saúde em Belo Horizonte. “Ainda hoje, muitas mulheres não procuram um posto de saúde para fazer o exame. A gente simplesmente não consegue bater a meta”, lamenta a ginecologista e obstetra Ana Luiza Amaral Bertelli. Para ela, a população precisa se conscientizar de que o Papanicolau é importante e que mesmo com a alta taxa de falsos-negativos, essa ainda é a melhor opção disponível no Brasil. “É um exame de fácil acesso. Enfermeira pode fazer, ginecologista, médico não especialista. O resultado sai em torno de 15 dias na rede do SUS. Se não for feito, as chances de a mulher contrair o HPV e ele ser disseminado aumentam consideravelmente”, alerta. 

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES) afirma que a meta em 2016 para a realização de exames citopatológicos do colo do útero (Papanicolau) era de 1.753.014 exames. Apenas 859.038 foram feitos, o que corresponde a 49% da meta – uma taxa muito distante da ideal, segundo Eduardo Batista Cândido, médico oncologista e diretor da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais.“É muito mais um problema de cobertura do que de baixa sensibilidade. Temos pacientes que fazem coleta e outros não”, explica. 

A OMS recomenda uma cobertura da população-alvo de, no mínimo, 80% para reduzir a incidência do câncer de colo de útero. “Então, o que nós temos é um problema muito maior do que os falsos-negativos. Se essa população passa a aderir ao Papanicolau de forma rotineira, as chances de reduzir o câncer no colo do útero no país seriam de 60% a 90%”, diz Eduardo. 

“Se você faz um teste na vida e não faz mais nada, e se esse teste é um falso-negativo, você foi para casa com câncer”- Luisa Lina Villa, bióloga e professora do Departamento de Radiologia e Oncologia da Escola de Medicina da USP, durante seminário Ciências e saúde, em Boston

Então, o que fazer? “A saída não está em descartar o exame, mas, sim, em continuar a fazê-lo de forma regular e, se possível, agregar novos métodos de prevenção”, afirma a professora Luisa Lina Villa. Para o oncologista Eduardo Batista Cândido, as duas condições de proteção primária são o uso da camisinha e a realização do Papanicolau, seja pela rede pública, seja pela privada. “O que aconselho é que a mulher procure o sistema de saúde e faça os exames. Que tenha consciência da importância dele, que deve ser feito de maneira periódica, porque mesmo com a vacinação, elas não estão isentas”, explica. 

VACINAS 

Desde 2014, o Ministério da Saúde oferece gratuitamente a vacina quadrivalente contra o HPV para meninas de 11 a 13 anos. Com a ampliação este ano, ela passou a ser ofertada para meninas entre 9 e 14 anos, meninos entre 11 e 14 anos e homens e mulheres, de 9 a 26 anos, vivendo com o HIV, mas outros grupos etários podem dispor das vacinas na rede privada, se indicada por seus médicos. Até hoje, foram imunizadas 5,3 milhões de meninas de 9 a 15 anos com as duas doses, o correspondente a 45,1% do total dessa faixa etária. Um número, infelizmente, muito baixo. 

A título de comparação, na Austrália, onde há a melhor cobertura de vacinação contra o HPV no mundo, 78% das meninas e 67,1% dos meninos receberam as três doses. Quando esse número atingir 80%, pesquisadores afirmam que será possível eliminar o câncer de colo de útero em até 13 anos, e até 2060, eliminar todos os cânceres ligados ao HPV. 

Mitos sobre o exame 

O Papanicolau existe desde 1940, mas ainda hoje alguns mitos em relação ao exame são propagados. E é exatamente por causa dessas crenças que ainda há resistência por parte de algumas mulheres em realizá-lo. Um desses mitos é que o exame não pode ser feito durante a gestação. “Tem gestante que acredita que possa perder o bebê e por isso não faz o Papanicolau”, explica a ginecologista e obstetra Ana Luiza Bertelli. 

Felizmente, a informação não tem nenhum fundo de verdade, já que gestantes têm o mesmo risco que não gestantes de apresentarem câncer de colo do útero. Elas devem fazer o exame em qualquer idade gestacional, preferencialmente até a 28ª semana. “O exame na gestação é feito de forma diferente, sem coleta endocervical, conforme as recomendações de rastreamento de câncer de colo uterino vigentes no protocolo do Ministério da Saúde”, afirma Ana Luiza. 

TRISTE ESTATÍSTICA 

Números no Brasil e no mundo 

» O câncer no colo do útero é o terceiro tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama e do colorretal 

» É a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil 

» Em 2016, mais de 16 mil pessoas foram diagnosticadas com o tumor no Brasil 

» Mais de 90% dos casos de câncer de colo do útero estão ligados ao HPV 

» O HPV tem 12 diferentes tipificações 

» Brasil está em oitavo lugar no número de casos de câncer no colo do útero 

» 23% é a taxa média de redução da primeira para a segunda dose da vacina de HPV 

» Se 80% dos meninos e meninas forem vacinados contra o HPV, o câncer de colo do útero pode ser eliminado em até 70 anos, segundo pesquisadores 

Diretrizes do Ministério da Saúde 

O rastreamento do câncer de colo do útero deve ser feito: 

» Em mulheres de 25 a 64 anos 

» Deve ser repetido a cada três anos, após dois exames normais consecutivos, com intervalo de um ano 

» Após 64 anos, eles devem ser interrompidos apenas se a paciente tiver dois exames negativos consecutivos em menos de cinco anos; se a mulher não tiver nenhum, devem ser feitos dois no intervalo de três anos 

» Para garantir um resultado correto, a mulher não deve ter relações sexuais (mesmo com camisinha) no dia anterior ao exame 

» Evitar também o uso de duchas, medicamentos vaginais e anticoncepcionais locais nas 48 horas anteriores à realização do exame 

» É importante também que não esteja menstruada, porque a presença de sangue pode alterar o resultado 

» Mulheres grávidas também podem se submeter ao exame, sem prejuízo para sua saúde ou a do bebê

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