Minas Gerais volta a ser alvo de assaltantes de outros estados

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Prisão de acusados de integrar facção paulista envolvida no assalto de proporções inéditas em Uberaba e morte de assaltantes da Bahia, no Jequitinhonha, indicam migração de criminosos

JH João Henrique do Vale

 

Agnaldo da Silva Pereira (E), Anderson de Souza e Camila Pereira da Silva, detidos em Goiás, confessaram participação em roubo no Triângulo, diz a polícia(foto: Polícia Militar de Goiás/Divulgação)
Criminosos comandados por uma facção paulista, que assaltaram uma transportadora de valores no Triângulo Mineiro e se refugiaram em Goiás; ladrões da Bahia que miravam um banco no Vale do Jequitinhonha, mas acabaram sendo interceptados pela polícia mineira. As últimas ofensivas do crime organizado contra instituições financeiras deixam evidente que Minas está no alvo de quadrilhas não apenas sediadas em estados vizinhos, mas que também se refugiam em outras unidades da federação após atacar, mostrando a necessidade de empenho de forças de segurança federais em crimes do tipo. E foi exatamente em uma atuação conjunta entre autoridades estaduais e a Polícia Federal que foram presos os primeiros acusados de atuar no assalto de proporções inéditas à empresa Rodoban, ocorrido em Uberaba na madrugada de segunda-feira.
 

Dois homens e uma mulher foram detidos em Caldas Novas (GO), e teriam confessado participação no roubo milionário à Rodoban na cidade do Triângulo. Segundo a polícia goiana, o trio faz parte de uma facção criminosa originária de São Paulo. Com eles foram encontrados pelo menos R$ 240 mil em dinheiro e uma pistola Glock. Também de um estado vizinho são quatro integrantes de uma organização criminosa mortos em confronto com a Polícia Militar mineira no Jequitinhonha. Eles seriam da Bahia e, segundo os PMs, tentaram explodir um caixa eletrônico em Rubim.

Para o coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas, Robson Sávio, associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a facilidade de acesso a armamento de grossos calibres e a deficiência no controle de explosivos vêm facilitando a atuação de grupos do tipo. “Com a grande disponibilidade de armamentos pesados Brasil afora, há uma facilidade maior da montagem desses bandos. Ainda há uma certa facilidade dessas quadrilhas para adquirir dinamite e explosivos, de controle do Exército Brasileiro”, afirmou.

Segundo o especialista, as quadrilhas migram entre estados procurando oportunidades de agir. “Há uma certa sazonalidade. Esses grupos atuam em determinados locais e, à medida que as forças policias diminuem a segurança, começam a atacar os alvos. São grupos bem organizados e com grande poder de ataque”, destaca.

OUSADIA Essa situação ficou evidente na última segunda-feira, em Uberaba. Em uma ação ousada, criminosos fortemente armados atacaram transportadora Rodoban, que acumulava dinheiro desde a quarta-feira anterior, devido ao feriado de 2 de novembro. Após montar barricadas com veículos e pneus em chamas, fechar ruas com correntes, estourar transformadores de energia à bala e sitiar o 4º Batalhão da Polícia Militar local, os ladrões explodiram parte da sede da empresa, de onde teriam levado aproximadamente R$ 20 milhões, segundo fontes extraoficiais – o valor não foi informado pela companhia nem pela polícia.

Os primeiros acusados de integrar a quadrilha foram presos depois de troca de informações entre o Serviço de Inteligência da Polícia Militar de Goiás, a Polícia Federal, a Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná e forças policiais de Minas Gerais. A partir desse trabalho, por volta do meio-dia de ontem agentes do Grupo de Radiopatrulha Aérea (Graer) goiano conseguiram localizar três suspeitos.

“Com a grande disponibilidade de armamentos pesados Brasil afora, há uma facilidade maior da montagem desses bandos”

Robson Sávio, coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas

Foram presos Agnaldo Francisco da Silva Pereira, conhecido como Magna; Anderson Manoel de Souza, o Nativa; e Camila Pereira da Silva, mulher de Magna. “Quando foi abordado, Magna apresentou um documento falso. Depois de identificados, todos confessaram a participação no assalto em Uberaba”, disse o major Pedro Henrique Batista, comandante do Graer. De acordo com o militar, o trio é experiente nesse tipo de crime. “Acreditamos que eles têm participação em ações contra outras bases de valores, como em Ribeirão Preto (SP), Araçatuba (SP), Campinas (SP) e em Cidade del Este (Paraguai)”, afirmou, sustentando que os suspeitos integram uma organização criminosa baseada em São Paulo.

Líder do grupo levava uma vida de luxo em casa com piscina e academia na cidade de Caldas Novas, segundo PMs goianos que fizeram as prisões(foto: Polícia Militar de Goiás/Divulgação)

VIDA DE LUXO Segundo o major, a mulher de Magna confessou ter levado integrantes do bando e seu companheiro para Uberaba em 3 de novembro e, depois do assalto, ter buscado os criminosos. Ainda de acordo com Batista, os presos indicaram que as armas teriam sido levadas para São Paulo depois do crime, mas não disseram para onde exatamente. Em Caldas Novas, cidade em que foram presos, os três levavam uma vida de luxo. “Com a identidade falsa, Magna comprava imóveis e veículos. Levava uma vida de empresário bem-sucedido, com casas de alto padrão e carros caros”, comentou o major. Depois da prisão o trio foi levado para depor na Polícia Civil.

A Secretaria de Segurança Pública de Minas informou que não comentaria as prisões em Goiás. Já a Polícia Civil mineira, sob o argumento de não prejudicar as investigações, se limitou a confirmar as detenções no estado vizinho e a informar que o grupo criminoso alugou uma chácara em Uberaba antes do ataque à Rodoban.

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Criminosos explodiram cofre de empresa de valores na madrugada desta segunda-feira. Rajadas de tiros e carros incendiados deixaram a população de Uberaba assustada(foto: Reprodução internet/WhatsApp )

Cerco e enfrentamento a criminosos das Bahia

A Polícia Civil mineira vai investigar se criminosos que foram mortos durante uma troca de tiros com policiais próximo a Almenara, no Vale do Jequitinhonha, têm relação com quadrilhas baseadas em Minas Gerais. O grupo era procurado desde sábado, quando alguns de seus integrantes foram interceptados pela Polícia Militar antes de atacar agências bancárias na região. Foram apreendidos com o bando dois fuzis 7.62, modelo Ak 47, uma submetralhadora, uma espingarda calibre 12, três pistolas 9mm, uma pistola .40, além de material explosivo, 13 placas de colete balístico e munição de diversos calibres.

As buscas começaram na madrugada de sábado, quando uma guarnição do Tático Móvel de Almenara passou por uma estrada de Rio Prado, cidade vizinha, e avistou um Uno com placas de Porto Seguro (BA) escondido às margens da pista. Segundo a PM, ao ser abordado pelos militares o condutor se mostrou nervoso e confuso.

Desconfiados, os militares pediram um bloqueio na região para tentar encontrar outros integrantes da quadrilha. Durante o cerco, um veículo preto passou em alta velocidade pelos policiais em Rubim, o que deu início a uma perseguição. Segundo a PM, durante o trajeto os ocupantes do carro  dispararam contra os militares, possivelmente com fuzis e metralhadoras, mas conseguiram abandonar o automóvel e escapar.

Na manhã de ontem, parte do grupo foi encontrado em um matagal próximo a Rubim. “Nesta manhã, um dos integrantes foi preso e localizado em um esconderijo. A PM encontrou cinco homens em um matagal e houve troca de tiros. Cinco foram alvejados, dos quais quatro morreram. O outro foi encaminhado para o hospital”, explicou o delegado regional de Almenara, Amaury Albuquerque. Segundo o policial, outros dois homens fugiram e até o fechamento desta reportagem ainda estavam sendo procurados.

Banco assaltado em Contagem

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, ladrões atacaram uma agência do Banco Mercantil do Brasil na Avenida João César de Oliveira, uma das mais movimentadas de Contagem, na manhã de ontem. Os criminosos fugiram com dois malotes de dinheiro depois de entrar no prédio de madrugada, por uma construção vizinha. Os ladrões se esconderam até a entrega de dinheiro ao banco por uma transportadora de valores, e fugiram com dois dos três malotes que haviam sido entregues. Não houve troca de tiros ou feridos, conforme a PM.