Saiba quais são os riscos de tatuagens e piercings em jovens

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Complicações surgem em qualquer idade, mas a falta de informação os deixa mais vulneráveis e a empolgação pode virar frustração

 por Paloma Oliveto Jessica de Almeida 

Leandro Couri/EM/D.A Press
O estudante Marco Túlio Jacques, de 21 anos, fez suas primeiras tatuagens recentemente e pesquisou bastante antes de decidir desenho, local e, principalmente, tatuador (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Práticas tão antigas quanto a história do homem, tatuagens, perfurações e escarificações nunca saíram de moda. Que o digam os adolescentes, sempre insistindo com os pais para autorizarem a colocação de um piercing ou a gravação de uma figura na pele. Embora a legislação proíba a realização dessas técnicas em menores de 18 anos, elas podem ser feitas, contudo, quando há anuência do responsável. Cientes de que os mais jovens ainda se encantam com as interferências corporais, médicos da associação de pediatria norte-americana publicaram, pela primeira vez, recomendações sobre elas, voltadas a pediatras, pais e filhos. 

A ideia do documento, publicado em forma de artigo na revista Pediatrics, não é fazer julgamentos morais nem estéticos, esclarece David Levine, coautor das recomendações e professor da Faculdade de Medicina Morehouse, em Atlanta. O que os médicos pretendem é esclarecer os mais jovens sobre os possíveis riscos dessas práticas, a fim de que tenham informação suficiente para decidir se querem ou não ir em frente. “Na maior parte das vezes, os adolescentes não sabem como é caro remover uma tatuagem ou que um piercing na língua pode resultar em um dente rachado”, exemplifica. 

A empolgação inicial para fazer uma tatuagem pode se transformar em frustração anos depois. É o caso de Letício Mattos, que firmou um acordo prévio com a mãe: ao completar 18 anos, já não responderia pela autorização que todo profissional da modificação corporal precisa para fazer procedimentos em menores de idade. Ele passou dois anos esperando afoito pela maioridade, mas, quando ela chegou, “empolguei, pensei pouco e fiz escolhas que não faria hoje”, relembra o estudante de artes plásticas. Hoje, com 25 anos e 16 tatuagens, já cobriu uma e planeja cobrir outra – prática chamada de cover up no ramo da tatuagem. 

“Cobri uma palavra tatuada no peito ainda aos 18 e que hoje não faz sentido algum, não fala nada sobre mim. Em vez de carregar algo vazio de significado e que visualmente já não estava tão bom, fiz um desenho floral por cima muito mais bonito e importante. Outra tatuagem, mas na panturrilha, será coberta porque não há qualidade no trabalho. Foi minha primeira tattoo e meu único critério, na época, foi o quanto eu pagaria por isso. Hoje, nem sequer me sinto à vontade para usar bermudas por causa do desenho”, lamenta. As outras 14 tatuagens, feitas anos mais tarde, são exibidas com orgulho por Mattos. Para ele, o arrependimento funcionou como aprendizado para que os próximos trabalhos sejam pensados com “mais maturidade e critério”. 

Já Marco Túlio Jacques, de 21 anos, se atentou para não passar pelo mesmo. Fez suas primeiras tatuagens recentemente e pesquisou bastante antes de decidir desenho, local e, principalmente, tatuador. “Vi que o profissional fazia curso de aprimoramento de sombra e agora já dá workshops sobre isso. Conversei com pessoas que já tinham tatuado com ele e nós dois já tínhamos conversado sobre assepsia. Pesquisei o local de trabalho dele e só então decidi quem me tatuaria”, conta. Para o estudante de jornalismo, é importante supor que não se saiba nada sobre o assunto. “Perguntei tudo. Inclusive depois que os trabalhos terminaram. Falamos sobre o processo de cicatrização, o que pode prejudicar a recuperação, possíveis infecções e queloides. Foi uma boa experiência.” 

ESTRUTURA 

Leandro Couri/EM/D.A Press
A tatuadora Maíra Maia, de 28 anos, lembra que tatuagem é uma arte delicada, precisa, definitiva, que fará parte de uma história (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

A tatuadora Maíra Maia, de 28, do estúdio Gata Preta Tattoo, em Belo Horizonte, explica que o profissional da área precisa entender da mecânica dos seus materiais e ter um conjunto de máquinas, já que cada uma funciona bem para um tipo de trabalho, se é pintura, se é delicado e de linha fina, se há linha grossa. “Máquinas são um investimento caro. Tintas de qualidade e manter uma paleta boa de pigmentos no estúdio é caro. Manter um estúdio significa pagar aluguel, taxa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), materiais descartáveis e de biossegurança, contrato com a empresa de lixo infectante, toda uma estrutura para garantir um espaço e acolhimento seguro e de qualidade pra quem vai tatuar”, relata. 

Além dos aspectos objetivos, Maia lembra que uma tatuagem é uma arte delicada, precisa, definitiva, que fará parte de uma história, por isso considerar a valorização do trabalho. “A profissional da tatuagem precisou estudar bastante para desenvolver um trabalho com qualidade. Precisa aliar conhecimento de criação e composição de imagem a um serviço da área de saúde. Tem que saber desenhar, pintar, entender de composição e movimento corporal, ter conhecimento sobre uso e combinação de cores, aliado ao entendimento de como isso vai funcionar num suporte vivo e em constante transformação: a pele”, argumenta. De acordo com ela, o cuidado e a manutenção corporal do tatuador também são considerados no custo final de cada sessão de tattoo. “Tatuar é empregar seu corpo numa atividade que exige muito dele. A gente tem que cuidar das nossas mãos, porque é muito comum ter tendinite, nossa coluna fica um caco, é um trabalho de muita atenção.” 

* Estagiária sob a supervisão da editora Teresa Caram 

Levados pelo impulso 

Desconhecimento dos riscos leva muito jovens a optar por tatuagens e piercings em locais que trabalham com pouca ou nenhuma higiene, sem seguir regras de segurança 

Paloma Oliveto 

As complicações provenientes de tatuagens e piercings podem ocorrer independentemente da idade. Porém, nos mais jovens, muitas vezes, o impulso e a desinformação acabam amplificando os riscos. Até porque, quando não autorizados pelos pais, eles tendem a recorrer aos tatuadores e body piercers de fundo de quintal, que trabalham em condições de pouca ou nenhuma higiene, sem seguir regras mínimas de segurança. 

O body piercer mineiro Rafael Dias, de 27 anos, foi buscar aprimoramento na referência: a Association of Professional Piercers (APP, Associação dos Piercers Profissionais, na tradução). Quando ele começou a se especializar, notou que padrão de qualidade e fonte de conhecimento vinham da APP, então decidiu focar em “capacitar minha mão de obra com o que teria de melhor”. Hoje, está em Las Vegas, no estado de Nevada, nos Estados Unidos. 

“Comecei vindo participar das conferências três anos atrás. Em uma delas, fui sorteado, recebi prêmios e um curso com Fakir e Jim Ward, os responsáveis pelo início da indústria do piercing no mundo”, orgulha-se. Recentemente, em retorno aos EUA, ele se tornou um associado da organização internacional de saúde e segurança dedicada à divulgação de informações de qualidade sobre piercing. “A associação tem padrões de mão de obra, experiência e sanitárias a serem seguidas para se associar. Recebi recentemente a confirmação de que agora sou um membro da APP. O primeiro brasileiro associado”, destaca. 

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Marina Bezerra, de 16 anos, teve complicações na primeira vez em que furou o nariz, aos 14, para colocar um piercing (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

A estudante Marina Bezerra da Silva, de 16, conta que isso é comum entre os adolescentes que conhece. “Muitos não têm maturidade. Os pais não autorizam e eles vão em lugares que podem colocá-los em risco”, diz. A jovem tem dois piercings, um na cartilagem da orelha e outro no nariz. Mas ambos foram feitos em estabelecimentos autorizados, com materiais descartáveis e esterilizados, e na presença dos pais dela. 

Mesmo com esses cuidados, na primeira vez em que furou o nariz, Marina teve complicações. À época com 14 anos, ela fez o piercing em um estúdio, como o recomendado, mas sofreu de inflamação com pus e queloide. Aos 15, ela resolveu colocar a joia na orelha e, seguindo corretamente as orientações de higiene, não teve problemas. Neste ano, a estudante resolveu fazer o piercing no nariz novamente, também sem qualquer contratempo. “O importante é seguir as recomendações. Eu limpo o local três vezes ao dia com álcool. Tem muito jovem que não se cuida”, diz. 

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
A estudante Giulia Dickel, de 20 anos, tatuou aos 16 anos num local seguro. Antes, com o piercing, foi “desleixada” (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

A estudante Giulia Dickel, de 20, concorda com Mariana. Ela fez o primeiro piercing aos 14 e a tatuagem aos 16. “O piercing foi na casa de um amigo que estava aprendendo o ofício. Eu fui muito desleixada, estava numa fase muito rebelde e queria pôr de qualquer jeito. Tive inflamação com um na orelha, por falta de cuidado meu”, conta. Já com a tatuagem, Giulia estudou bastante e procurou um estúdio sério. “O próprio tatuador se preocupou em me mostrar tudo limpinho, os materiais descartáveis, e o lixo para descartar a agulha”, relata. 

Grávida do primeiro filho, a jovem, agora, se coloca no lugar dos pais. “Acho que os pais têm de ficar no pé. Tem muito jovem que faz em qualquer lugar, paga tatuagem de R$ 50, faz piercing na casa dos coleguinhas e pega infecção. Se for para fazer, é muito importante ter a orientação dos pais e ter certeza do que quer e de que não vai se arrepender”, acredita. 

VOTO DE CONFIANÇA 

O profissional do piercing, de acordo com Rafael Dias, precisa lidar com um turbilhão de emoções, estabelecer um controle e ao mesmo tempo dar abertura para o cliente ter o comando do seu ‘ritual’. “Quando alguém me escolhe para perfurar, reconheço a responsabilidade em minhas mãos, mesmo sabendo que talvez a pessoa não pensou nisso conscientemente. O voto de confiança em mim e na minha profissão é muito grande, a entrega do corpo do outro, a permissão para uma invasão, e o poder de modificar e transformar essa pessoa na expressão/imagem que ela quer passar para o mundo”, opina. 

O valor a ser pago, a preferência pelo mais baixo deles, no caso, não pode ser um critério de escolha na hora de fazer uma modificação corporal. O importante não é o preço, mas o procedimento e a segurança dele e, nesse caso, vale pensar como compras no supermercado: o preço baixo não vai garantir qualidade. “Meu tatuador e eu conversamos sobre os motivos de ele cobrar o quanto cobra. Existe investimento no bom material e na melhor máquina para se trabalhar”, observa o estudante Marco Túlio Jacques. 

PRECOCES 

Segundo o artigo publicado na Pediatrics, os adolescentes se tornam adeptos das artes corporais cada vez mais cedo. Pesquisas citadas no artigo e realizadas em oito estados norte-americanos mostram que 10% dos estudantes de high school, equivalente ao ensino médio brasileiro, têm tatuagens, e 55% desejam fazê-las. Em média, eles se tatuam aos 15 anos, embora os levantamentos tenham encontrado crianças de 8 já tatuadas. Um dos estudos, com jovens de 12 a 22 anos constatou que de 10% a 23% dos entrevistados tinham piercing (não incluindo furos no lóbulo da orelha). No Brasil, não há dados semelhantes disponíveis. 

Embora o interesse pelas modificações corporais seja alto, outra pesquisa citada na Pediatrics, conduzida entre calouros de universidades italianas, revelou que o desconhecimento a respeito dos riscos é grande. Cerca de 60% deles sabiam que é possível contrair HIV/Aids com equipamentos de tatuagem e piercing contaminados. Porém, menos da metade já tinha ouvido falar dos riscos de hepatite C (38%), hepatite B (34%), tétano (34%) e outras condições não infecciosas (28%), como alergias. “Essas descobertas são semelhantes às obtidas em uma amostra de estudantes de medicina que fizeram piercing”, diz o artigo da Associação de Pediatria Norte-Americana (AAP). 

Dor e deformação 

Um outro problema de adolescentes fazerem tatuagem é que, antes dos 15, 16 anos, o crescimento não se deu por completo, lembra o dermatologista do Grupo Aepit Gilvan Alves, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica e de associações como a American Academy of Dermatology. “Com o crescimento, o desenho da tatuagem ficará deformado, porque a pele estica. Pode até abrir uma estria bem no meio da figura”, afirma. 

E, no caso de arrependimento, é possível desfazer a tatuagem a laser, mas o processo não é rápido, nem indolor. “É possível fazer a remoção em qualquer idade, mas não é tão simples quanto fazer a tatuagem. Para a remoção completa, são necessários de três meses a um ano, sendo que tem um intervalo de um mês entre cada sessão. É caro e doloroso. Dói, sangra, dá ferida”, relata o dermatologista. 

Mesmo as tatuagens temporárias, de henna, oferecem riscos, diz Alves. Com o agravante de que, por acharem inofensivas, muitos pais permitem que até crianças pequenas as façam e, geralmente, em ambientes não controlados, como praias. “A henna é extremamente alergênica e, em casos raros, pode dar até choque anafilático, levando à morte. O ideal é fazer apenas um pedacinho do desenho e esperar 72 horas, porque pode haver reação tardia”, ensina. 

PALAVRA DE ESPECIALISTA:
Nathália Sarkis, membro titular da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) 

A importância do diálogo

“Uma vez que temos um público de adolescentes cada vez mais interessado em piercings e tatuagens, o pediatra e a família têm de saber orientar. É preciso orientar nas consultas sobre os riscos que, muitas vezes, eles desconhecem, como inflamações, infecções e até doenças graves, como Aids e hepatites. Muitos pais têm preconceito com o tema e se recusam a abordá-lo com a criança e o adolescente. Porém, esse diálogo tem de existir, e, no consultório, o pediatra pode ajudar. Se os pais não conversam, os filhos vão em qualquer lugar, em vez de escolher um profissional e uma clínica adequados, e aí não há mais o que ser feito.”

Cuidados necessários 

» Sangue e outros fluidos que saem durante o procedimento devem ser retirados cuidadosamente 
» Depois do desenho pronto, a pele deve receber mais antisséptico e ficar coberta por 24 horas 
» Mesmo quando se tira a proteção, é preciso aplicar antibióticos tópicos, cremes ou óleos várias vezes ao dia 
» Geralmente, são necessárias duas semanas para cicatrizar, período em que se deve evitar tomar sol, nadar ou molhar diretamente com duchas 
» Roupas que aderem à tatuagem não podem ser usadas 
» Em estúdios de fundo de quintal, o material utilizado pode não obedecer às normas das agências de vigilância sanitária