Um ano depois de eleito, Trump age como em campanha e promessas continuam no papel

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Presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump fala o que quer e mantém clima bélico com opositores.


Poucas realizações marcam a gestão de Trump, que pode perder força nas eleições do Legislativa em novembro
(foto: Mandel Ngan/AFP)

Washington e Cincinatti – Um ano depois de eleito, o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, continua a agir como um candidato que defende suas promessas de forma aguerrida, fala o que quer e mantém clima bélico com opositores. A partir do segundo semestre de 2017, Trump acelerou as movimentações para tirar seu plano de governo do papel. Restringiu a entrada e a permanência de imigrantes no país, aprovou a reforma tributária, tirou ou renegociou a participação dos EUA em diversos acordos internacionais, como no caso do pacto nuclear com o Irã.

Apesar do alarde, a maior parte dessas medidas acabou sendo menos radical do que o propagado pelo mandatário, caso da reformulação do Obamacare, sistema de saúde implementado pelo antecessor, Barack Obama. Mas os efeitos dessas ações, tão controversas quanto a personalidade do republicano, ainda serão conhecidos a longo prazo. “Nada mudou nas nossas vidas desde que ele assumiu”, comenta taxista norte-americano que trabalha nos arredores da Casa Branca e prefere não ser reconhecido pelo vizinho Trump.

Se a maior parte da população o desaprova, os indicadores econômicos são aliados do republicano. Segundo o Bureau PF Labor Statistics, órgão nacional de estatísticas trabalhistas, o desemprego – um dos principais focos da campanha do presidente – diminuiu de 4,9%, em dezembro de 2016, para 4,1% um ano depois. O número de pessoas sem trabalho nos EUA recuou de 7,8 milhões para 6,6 milhões, o que tem levado o presidente a repetir de forma reiterada que está “devolvendo” a América aos americanos.

Hoje com maioria no Congresso, a vida de Trump, no entanto, pode ficar mais difícil nos próximos três anos de mandato. Em novembro, os norte-americanos voltam às urnas, desta vez para eleger parte de seus representantes na Câmara e no Senado, ambas as casas atualmente com maioria republicana. Especialistas projetam uma tendência de reversão desse quadro pelos democratas, o que dificultaria a aprovação dos projetos do Executivo.

PRINCIPAIS MEDIDAS 

Acordo de Paris
Em junho, Trump anunciou a retirada dos EUA do Acordo de Paris, assinado em 2015 e que prevê medidas para evitar o aquecimento global. A intenção é limitar o aumento da temperatura em 1,5 grau centígrado até 2020. “Fui eleito para governar Pittsburg, não Paris”, disse.

Jerusalém, capital de Israel
Em dezembro, Trump (foto) reconheceu Jerusalém como capital de Israel, o que é rejeitado pelo mundo islâmico. O ato implica transferência da embaixada do país em Israel de Telavive para Jerusalém. A ONU se posicionou veementemente contra.

Renegociação do Nafta
Além de ter retirado os EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), Trump iniciou a renegociação do Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio), entre EUA, México e Canadá. O argumento do presidente é que, desde o acordo, que há 23 anos aboliu as fronteiras alfandegárias entre os países, o país passou a ter um déficit em sua balança comercial com o México, além de ter perdido fábricas, que preferiram se instalar no vizinho.

Um sonho em suspenso
Em setembro, Trump acabou com o programa Deferred Action for Chilhood Arrivals (Daca), que regulamenta, temporariamente, a situação dos cerca de 690 mil imigrantes ilegais que chegaram com crianças aos EUA. O grupo é conhecido como The Dreamers (Os sonhadores). Um juiz da Califórnia revogou o término e agora o assunto segue como uma das principais polêmicas a serem discutidas no Congresso. Trump quer incluir o muro na fronteira com o México dentro da lei sobre os Dreamers.

Tax Cut Bill
Considerada a grande vitória de Trump no Congresso, em dezembro, ele sancionou a reforma tributária (Tax Bill Cut). Uma das promessas de campanha, a medida corta mais de US$ 1,5 trilhão de impostos nos próximos 10 anos. O alívio é sobre grande empresas e fortunas.

Coreia do Norte
Ao contrário da adoção da “paciência estratégica” adotada pelo ex-presidente Barack Obama em relação ao ditador norte-coreano Kim Jong-Un, Trump se rendeu às provocações e vem protagonizando troca de farpas com o líder asiático, o que aumenta as tensões em torno de um ataque nuclear entre os dois países. Na última briga, os dois disputaram “quem tem na mesa o maior botão” para acionar a bomba. “O meu é maior e funciona”, disse Trump.

Entrada no país de imigrantes
Trump decretou o fim do Status de Proteção Temporária (TPS) para diversos países, entre eles Haiti, El Salvador, Nicarágua e Sudão. O TPS concedia permissão a cidadãos de países afetados por conflitos bélicos ou desastres naturais. Somente do Haiti, havia mais de 58 mil beneficiários. Na semana passada, Trump questionou a um jornal “por que temos toda esta gente de países (que são um) buraco de merda vindo aqui?”.

Muro na fronteira
Uma das principais promessas de campanha de Donald Trump, o muro de segurança na fronteira com o México ainda não avançou. O presidente está tentando incluir o assunto em outros acordos, como na renegociação do Nafta e do Daca, programa que visa regularizar a questão de jovens ilegais que chegaram crianças aos EUA.

Obamacare
Os EUA não contam com um sistema público universal de saúde e a intenção do Obamacare, criado por Barack Obama, foi facilitar o acesso da população a planos de saúde. Trump tentou revogar, sem sucesso, o programa. Senadores conseguiram manter pagamento de subsídios a seguradoras nos próximos dois anos.

Acordo com Irã
O presidente Donald Trump tenta rever acordo nuclear que limita o programa atômico de Teerã em troca da suspensão das sanções internacionais. Inicialmente, ele havia suspendido o pacto, mas suspendeu temporariamente as sanções, na tentativa de pressionar demais países signatários a rever os termos.

*A repórter é um dos nove participantes do programa “Cobertura da Presidência dos Estados Unidos 2018”, organizado pelo International Center for Journalists (ICFJ) e promovido pela Embaixada dos EUA. Também integram o grupo jornalistas de Gana, Paquistão, Quênia, Reino Unido e Uruguai.