Dr. Fabricio Rossati: Conheça a história e a  autobiografia de um  médico  mantenense que ama a Terra Boa e sua gente 

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Conheça a história e a  autobiografia de um  médico  mantenense que ama a Terra Boa e sua gente

Minha História

Sou Fabrício Paulo Rossati. Nasci nessa Terra Boa. Filho do Sr. Antônio Rossati, o Antônio da Brahma, fiscal da receita estadual e da Dona Watfy, professora e educadora.

Um abraço inesquecível com os velhos pais…

Mantena me viu nascer no outono, no fim da década de 60 sob o abençoado céu de Touro. Nessa cidade fui um bebê. Fui menino, fui moleque. Brinquei de esconde-esconde e joguei bola na rua. Aprendi a nadar no Clube dos Jovens. Joguei futebol no campo do Emiliano e pulei no riacho de lá. Estudei também.

Fui alfabetizado, e aprendi com grandes professoras (e alguns professores também). Fui aluno do Colégio das Irmãs, da Escola Estadual Antônio Carlos e do Colégio Estadual Zilda Pinheiro da Silva. Frei Paulino me deu a hóstia consagrada na Matriz de Santo Antônio na minha primeira comunhão.

Feira de ciências no Polivalente. Eu, Sandro Massariol, Ellen Ady, Alvanir, Ulisses. Em cima Viviane Pena e Lívia

Frequentei as barraquinhas na festa de 13 de Junho. Fiz amigos, muitos. Alguns conservo até hoje. Minha vida boa nessa terra boa, durou até os meus 14 anos. Chegou o dia da mudança em 1983.

Minha família migrou pra Governador Valadares e eu fui junto. Minha bagagem era uma mala de roupas e uma caixa de papelão cheia de times de futebol de botão. A cidade da minha infância ficava pra trás. Fui ser adolescente em Valadares, onde morei dois anos. Quase não deu pra curtir. Eu não sabia, mas viraria adulto na marra, aos 16 anos, aprovado no duro processo vestibular da UFMG. Lá fui eu pra capital, aprender medicina, amadurecer e formar minha família.

Uma nova etapa 

A mudança pra Belo Horizonte não foi simples. A capital não se entregou a mim facilmente, mas por fim recebeu esse caipira e o acolheu muito bem. Aqui conheci a liberdade e respirei os bons ares da universidade. Tempos de muito estudo, mas de madrugada nos botecos, rodas de violão, muita cultura, Mineirão lotado, pulsando no ritmo do meu coração azul celeste.

Com as filhas no Mineirão

Na faculdade o coração bateu mais forte por uma menina do interior, que usava um maiô preto no clube da universidade. Veio a formatura, o diploma, a responsabilidade, a especialização em clínica médica e em seguida a anestesiologia.

Veio o casamento, e vieram as meninas. A primeira adoeceu gravemente nos primeiros dias de vida, mudando pra sempre minha maneira de enxergar a medicina. A caçula chegou dois anos depois, completando minha família e minha felicidade.

Aprendi a ciência e a arte da anestesia. Virei professor dos médicos mais jovens, ajudei a fundar um hospital e construí minha casa em Nova Lima. E assim, voltando pra uma cidade menor, me preparo para minha velhice. Mas no peito, sempre existe uma lembrança.

Valsa da formatura com minha mãe

Mantena, minha querida aldeia onde tudo começou. Um grande abraço para meus conterrâneos. Espero poder beijar de novo, e em breve, esse solo sagrado.

O Encrenqueiro

Estudei por quatro anos (na verdade um pouco menos) da minha infância na Escola Estadual Antônio Carlos em Mantena. Quando eu ingressei no colégio, minha mãe já era diretora da instituição, escolhida por voto direto entre as professoras para o cargo. Ela trabalhava em sua própria sala (diretoria), localizada perto do portão de entrada da escola.
Eu era aluno um pouco preguiçoso, mas cumpridor dos meus deveres, e não dava grande trabalho para minha mãe. Mas um dia…

Eu e uma colega nos desentendemos durante uma brincadeira, daquela de puxar a cadeira rapidamente para o colega que fosse sentar caísse de bunda no chão. Não sei se fui eu quem puxou a cadeira dela ou se foi o contrário. O fato é que a brincadeira não terminou bem. Iniciamos uma briga (não física, com troca de tapas e outras amabilidades), com discussão acalorada, e fomos devidamente flagrados por nossa professora. Ela não teve a menor dúvida ao ver aquele desentendimento e nos mandou para a sala da diretora. No caminho até lá, desconfiei que eu estava em nítida desvantagem. Eu já conhecia bem aquela que eu deveria enfrentar. E ela não gostava nada de alunos nem de filhos indisciplinados…
Dito e feito. Ao chegar na diretoria, minha mãe que já estava acostumada com toda espécie de alunos arruaceiros, tomou um susto ao ver o próprio filho. Ignorou solenemente a presença da minha colega (uma das melhores alunas da classe) e me aplicou o maior sermão que já levei na vida. Era inadmissível o filho da diretora causando problemas disciplinares. Fomos mandados de volta para a sala de aula. Minha colega incólume e eu de cabeça quente e arrasado com as iradas reprimendas que ouvira.
Para os amigos que nunca tiveram a experiência de serem expulsos da sala de aula pra ter que encarar a própria mãe na diretoria, deixo um conselho: é melhor evitar, porque não é nada bom…
Cerca de 40 anos após os fatos terem acontecido, tive a oportunidade de reencontrar minha colega Sandra. Ela me revelou o motivo da briga, que eu esquecera. Mesmo sem saber se eu era realmente o culpado, achei melhor pedir desculpas, mesmo com quatro décadas de atraso. Provavelmente eu mesmo, provocador que era, é que causei a briga, e nunca é demais evitar desavenças com as damas, sejam elas colegas de classe ou diretoras da escola. Elas tem sempre razão.

Fabrício Paulo Rossati

Nova Lima, outono de 2020.