A 3ª Promotoria de Justiça de Mantena protocolou um aditamento à denúncia no processo 5001731-74.2026.8.13.0396 para reconhecer que os números usados para fundamentar uma das acusações criminais mais graves já movidas contra administradores hospitalares na região eram, na prática, irreais. A denúncia original apontava que o esquema investigado controlava quase R$ 964 milhões em recursos públicos do SUS. O valor correto, após revisão, é de aproximadamente R$ 43 milhões. Uma diferença de 920 milhões de reais.

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MP de Mantena é obrigado a reconhecer erro que ocasionou uma denúncia de desvio de quase 1 bilhão de reais na saúde de Mantena

Não foi uma revisão espontânea. Foi uma correção forçada.

Com base naqueles números originais, o MP havia requerido o bloqueio de R$ 61 milhões em bens dos acusados, a retenção de passaporte do sócio-administrador da empresa UNIRAD, o afastamento dos diretores dos hospitais de suas funções e a intervenção urgente do Município de Mantena na gestão das unidades. Todas essas medidas foram requeridas com base em dados que não refletiam a realidade.

O próprio aditamento explica como o equívoco aconteceu. A Promotoria extraiu planilhas do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União e interpretou os valores totais das Ordens Bancárias como se fossem repasses individuais a cada hospital. O sistema, porém, consolida em um único documento pagamentos destinados a dezenas de prestadores do SUS em todo o estado, operados pelo Banco do Brasil como intermediário. Numa Ordem Bancária de R$ 6,35 milhões citada no próprio aditamento, a parcela efetivamente destinada ao Hospital São Vicente de Paulo era de R$ 11.678,46.
O erro não foi descoberto internamente. Foram os representantes do Hospital São Vicente de Paulo que, convocados a uma reunião na Promotoria, negaram categoricamente os valores. Só então o MP revisou os documentos um a um.
O aditamento registra a conclusão com a cautela característica da linguagem institucional: “a análise pretérita induziu este órgão ministerial a uma conclusão equivocada quanto à magnitude dos repasses diretos”. O que os documentos mostram, na prática, é que medidas cautelares de natureza gravíssima foram requeridas sem que os dados que as sustentavam tivessem passado por uma conferência mínima junto às fontes primárias.

O bloqueio patrimonial, antes fixado em R$ 61 milhões, foi recalculado para cerca de R$ 2,6 milhões. Uma redução de 95%.
As demais imputações, cartel, falsidade ideológica, sonegação fiscal, exercício irregular da medicina e frustração de licitação, permanecem na denúncia e seguem seu curso. Podem, ao final, se mostrar procedentes. Mas o processo chegou até aqui carregando, por meses, uma acusação financeira 22 vezes superior à realidade, e a correção só veio depois que os próprios denunciados a exigiram.
Num processo penal, isso não é detalhe.
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