
Em Mantena, todo mundo se conhece. É daquelas cidades onde a notícia caminha mais rápido que qualquer processo judicial e quando o nome de alguém aparece numa denúncia criminal de quase um bilhão de reais, a cidade inteira sabe antes do fim do dia. Os vizinhos sabem. Os colegas sabem. A família sabe.

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QUANDO O ESTADO ERRA, QUEM PAGA A CONTA NÃO É O ESTADO – Por Vasconcellos

No papel, o erro foi corrigido. Na vida das pessoas envolvidas, é mais complicado do que isso.

Foi o que aconteceu com os diretores dos hospitais São Vicente de Paulo e Evangélico de Mantena que foram acusados, identificados publicamente e associados a um dos maiores esquemas de desvio já denunciados no interior de Minas Gerais. Um escândalo bilionário numa cidade de pouco mais de vinte mil habitantes tem um tamanho desproporcional, pois ele ocupa espaço em cada conversa, em cada mesa de bar, em cada grupo de família no celular.

Depois veio a correção. O valor real era vinte e duas vezes menor do que o anunciado.
No papel, o erro foi corrigido. Na vida das pessoas envolvidas, é mais complicado do que isso.
Reputações levam anos para serem construídas e poucas horas para desmoronar. Um diretor de hospital denunciado por suposto esquema bilionário não é visto da mesma forma que era na semana anterior. Não importa o que venha depois, a primeira impressão já fez o seu estrago e a dúvida ficou. E em cidade pequena, a dúvida tem memória longa.

As famílias dessas pessoas também pagaram uma conta que não era delas. Filhos que ouvem comentários na escola. Cônjuges que precisam explicar o que não tem explicação simples. Parentes que não sabem o que responder quando perguntados. Esse tipo de dano não aparece em nenhuma petição, não tem valor calculável e não cabe em nenhum aditamento processual.
E a população de Mantena, que não tem nada a ver com o processo? Ela também foi atingida. Os dois hospitais são praticamente tudo que a cidade e a região têm em termos de atendimento de média complexidade pelo SUS e qualquer instabilidade na gestão dessas unidades não é problema só dos diretores, é problema de quem espera por uma consulta marcada há meses, de quem precisa de um exame que só tem ali, de quem depende daquelas estruturas para continuar vivo.
A ameaça de intervenção, o bloqueio de bens, o afastamento dos diretores, tudo isso criou um ambiente de insegurança que contamina muito além dos muros do processo. Fornecedores hesitam em manter contratos. Profissionais de saúde evitam vínculos com instituições sob suspeita. Parceiros recuam. Uma instituição hospitalar denunciada por suposto esquema bilionário não recupera sua normalidade operacional com um simples protocolo de retificação.
Houve ainda a conta invisível, aquela que ninguém vê mas todo mundo paga. Advogados contratados às pressas. Reuniões de crise que se estenderam por horas. Documentos reunidos um a um para provar o óbvio. Noites mal dormidas. Energia, tempo e dinheiro gastos para demonstrar que um número estava errado desde o princípio, e que bastava uma conferência básica para que isso fosse descoberto antes de qualquer denúncia.

No fim, o erro foi reconhecido e o processo segue com números mais próximos da realidade. As instituições continuam funcionando.
Mas nenhum papel protocolado devolve o que foi levado. O tempo perdido não volta. O nome manchado não se limpa sozinho. E o desgaste acumulado por quem foi acusado de desviar o que nunca desviou, pelo valor que nunca existiu, numa denúncia que precisou ser corrigida pelos próprios acusados, essa fica.
Quando o Estado erra, ele segue em frente. Quem fica para trás é outro.
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