O CINEMA DO TIO ARCHIMEDES
PARTE 1 – MATINÊS
POR NETO MENDES


O Cine Teatro Império no final dos anos 50 até os anos 80 foi o lugar mais escuro e concorrido do Mantena, com certeza era dentro do escurinho do cinema que acontecia os primeiros namoros, os primeiros beijos. Assim como num filme de amor, centenas de casais mantenenses se formaram e se casaram e foram felizes para sempre.
Comecei a frequentar o Cinema ainda quando engatinhava as vezes acompanhava minha mãe quando ela ia visitar a tia Leia e o tio Archimedes os proprietários do cinema. Eles moravam no segundo andar em cima da loja de tecidos A Futurista que é da família também até hoje.
Eu era curioso entrava no cinema por cima onde tinha uma varanda que ligava a casa ao cinema que dava direto na sala onde ficavam as máquinas de passar os filmes. Eram 2 maquinas com 2 rolos grandes em cada uma. Um rolo em cima cheio e o filme ia passando por uma engrenagem na máquina para o carretel de baixo que ficava vazio.
A medida que o filme ia sendo projetado o carretel de cima ia ficando vazio e o debaixo ia enchendo, quando acabava o rolo de cima o operador Joaquim tinha que ligar a outra maquina sem interromper o filme e sem dar na pinta essa passagem de uma máquina para a outra na tela, essa passagem tinha que ser perfeita se não fosse era uma vaia danada do público.

Eu ficava fascinado com aquela luz branca forte que ia até uma tela grande no outro lado do salão, essa luz branca se transformava em imagem e som, para mim era pura magia. Em 1959 o tio Fernandinho chamou o irmão Archimedes que tinha dado baixa como militar em Belo Horizonte para vir a Mantena e comprar o cinema que estava a venda.
O Tio Archimedes nunca trabalhou com cinema mas aceitou o convite do irmão e comprou o prédio e os equipamentos, arregaçou as mangas e em pouco tempo transformou Cine Teatro Império no lugar mais bem frequentado do Mantena.

O cinema funcionava com a participação de todas as filhas principalmente as mais velhas a Nem, a Yeye e a Rogeria. A Cleyde a mais nova das quatros normalmente trabalhava na bilheteria das matines era mais tranquilo porque nas sessões noturnas a confusão na bilheteria era certo de tanta gente na fila para comprar ingressos. Cobrar certo e dar o troco certo e depois conferir os bilhetes vendidos com os recolhidos na portaria pelo Joaquim vazia parte do trabalho e das responsabilidades da filhas do tio Archimedes no negócio.
As matines eram sempre as 13h a primeira sessão e as 15h a segunda sessão aos domingos. Eram filmes diferentes nesses horários tinha que escolher qual assistir. Eu durante a semana engraxava os sapatos lá de casa e também da casa da tia Penha e o tio Galvão para ter um troquinho a mais e poder assistir os dois filmes da matine, comprar balas e revistinhas.
Os filmes normalmente era os 3 patetas, Charles Chaplin, Batman, Tarzam, uns godizilas japoneses, Fastama, os filmes na maioria eram preto e branco e tinha uns que pareciam série no outro domingo tinha que voltar para assistir o final do filme.
Do cinema nacional os filmes do Mazzaropi e o vigilante com o seu Rin-Tin-Tin eram a sensação nacional. A sala de cinema lotava com a criançada e também vários adultos que acompanhavam as crianças, procurávamos sentar na mesma fila ao lado dos amigos, assim a bagunça era garantida.

Dentro da sala tinha uma bomboniere, aquilo era muito chique toda de vidro com uma lâmpada vermelha bem fraquinha que não interferia na escuridão do cinema na hora da exibição do filme mas permitia vê as guloseimas e o dinheiro.
Tinha chocolates, balas, os tutti-frutti, dropes, amendoim com chocolates. As guloseimas comprados no bar da tia Rosa sempre acabavam no meio do filme aí iamos na bomboniere sem sair do cinema e também não perder nada do filme.
Quando apagava a luz para o filme começar era uma algazarra só, nada era combinado, mas, todas as crianças juntas começavam uma bateção de pés no chão e gritos no escuro, nesse momento entrava em ação a lanterna do tio Archimedes e do Dairão na caça dos arruaceiros.
Na hora que aparecia o leão rugindo da Metro-Goldwyn-Mayer era um estrondoso barulho que mesclava euforia com histeria, era loucura da boa a sala parecia um hospício de crianças. Antes de entrar no cinema enquanto estávamos na fila a calçada virava uma feira na porta do cinema tinham muitas crianças que levavam figurinhas para trocar ou jogar no bafo e também podia trocar revistas ou comprar. Eram revistas dos Mickey Mouse, irmãos Metralhas, Tio Patinhas, Donald, Fantasma, Faroeste se fazia bons negócios nessa feira na calçada do Cine Teatro Império.
Depois das sessões o destino era o Bar da Tia Rosa para tomar aquele maravilhoso gelato (sorvete com dna italiano) a famosa vaca preta. A vontade de crescer era grande para começar a ir nas sessões noturnas sem acompanhante e mergulhar em outro mundo cinematográfico.
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